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O Hip Hop como Ferramenta de Terapia: Com o Rapper e Psicólogo Soul Afra

O Hip Hop como Ferramenta de Terapia: Com o Rapper e Psicólogo Soul Afra

O hip hop sempre foi mais do que batida e rima, é voz, identidade e resistência. Nas periferias, ele já servia como desabafo e espaço de pertencimento, muito antes de ser reconhecido como cultura mundial. Agora, a cena vai além: aprendemos com o Rapper Soul Afra, que o hip hop começa a ganhar força também como ferramenta de cuidado com a mente.

Um rapper que também é psicólogo encontrou um jeito único de se conectar com jovens e adultos que muitas vezes não se sentem à vontade em terapias convencionais. Ele une os métodos tradicionais da psicologia com a linguagem da rua, tornando a terapia mais próxima, acessível e, claro, criativa.

 

 

 

A Rima Como Cura

Escrever versos, improvisar e rimar é mais que música: é uma forma de liberar emoções, ressignificar dores e buscar autoconhecimento, funcionando quase como terapia. No hip hop, essa conexão se fortalece, já que a cultura fala a língua da juventude e oferece acolhimento onde a terapia tradicional muitas vezes não chega. Oficinas, batalhas de freestyle e até gravações no celular se transformam em ferramentas poderosas para trabalhar ansiedade, autoestima e até depressão.

 

Veja também: O que faz um fã se tornar um super fã? – Murb Brasil

O Hip Hop como Ferramenta de Terapia: Com o Rapper e Psicólogo Soul Afra
Foto: Sarara Rodrigues

 

 

Troca de Ideia com o Rapper e Psicólogo Soul Afra

Alexsander, mais conhecido pelo apelido Soul Afra, é um artista de São Bernardo do Campo que respira hip hop desde os anos 2000. Começou sua trajetória ensinando break para a molecada da região e, ao longo de mais de 25 anos de envolvimento com a cultura, passou também a se dedicar à música e ao rap, resgatando o mesmo propósito de expressão e transformação que tinha na dança. Paralelamente, é psicólogo e neuropsicólogo com seis anos de experiência na área da saúde mental, atuando no CAPS e atualmente em transição para o CAPS Infantil, trabalhando com crianças e adolescentes. Em seu trabalho, Alexsander une a psicologia ao hip hop, utilizando a cultura como ferramenta de conexão e expressão dentro de seus atendimentos.

Se liga no bate-papo e aula com o rapper Soul Afra:

 

Na sua visão, rimar pode ser uma forma de terapia? Já atendeu pessoas ou viveu experiências que mostram o rap como um canal de cura emocional?

“Uma das primeiras coisas é desmistificar o que é psicoterapia. Muita gente pensa que é só para quem está passando por traumas ou momentos difíceis, mas a psicologia também serve para fortalecer habilidades pessoais e interpessoais. É aí que o rap e a cultura hip hop entram: escrever ou ouvir rimas ajuda as pessoas a se expressarem, falarem sobre sua história, seus sonhos e desejos, mesmo quando têm dificuldade de se abrir. A arte vira um canal para entender a própria realidade e se conectar com os outros, trazendo sensação de pertencimento.”

 

Como psicólogo, que técnicas você mesmo usa (ou recomenda) pra lidar com ansiedade antes de subir no palco?

“Uma das primeiras coisas é entender a ansiedade e a diferença entre ansiedade normal e transtorno de ansiedade. A ansiedade faz parte, ela é até útil: dá aquele frio na barriga, libera adrenalina e ajuda a raciocinar mais rápido antes de se apresentar ou participar de uma batalha. O transtorno de ansiedade é quando isso atrapalha de verdade a sua vida ou performance. Para lidar com ela, eu trabalho duas frentes: a física, controlando a respiração para acalmar o corpo, e a cognitiva, mudando a forma de pensar para não se deixar dominar pelo medo do erro. Reconhecer e aceitar essas emoções é o primeiro passo. Todo artista sente ansiedade, mas aprender a lidar com ela faz a diferença entre travar e se soltar no palco.”

 

Você acredita que letras de rap podem influenciar o comportamento do público? Como enxerga essa responsabilidade como artista e psicólogo?

“Eu acredito que a música pode influenciar, mas não é fator determinante. Tem gente que acha que ouvir Facção Central ou funk vai fazer alguém entrar no crime, mas isso depende muito mais das escolhas e predisposições da pessoa do que do que ela escuta. Para mim, por exemplo, ouvir Facção Central não era apologia ao crime, mas uma forma de conscientização e reflexão sobre questões sociais e raciais. Muitas músicas falam da vida do artista ou dos sonhos dele, e isso também pode servir como exercício de terapia: colocar seus próprios desejos e objetivos no papel. No fim, a música é uma ferramenta de expressão, aprendizado e pertencimento, mas não define sozinho o caminho de ninguém.”

 

Como você equilibra o corre de artista com a profissão de psicólogo? Existe choque ou eles acabam se alimentando um do outro?

“Quando me formei em psicologia, no começo eu não queria misturar com o hip hop. Mas percebi que o adoecimento psicológico é multifatorial e que fatores como pertencimento, cultura e identidade influenciam muito nosso equilíbrio emocional. O hip hop sempre foi parte da minha vida e me ensinou que a música e a cultura podem ser uma tábua de salvação — não salvam sozinhas, mas ajudam você a se encontrar. Como Martin Luther King disse, ‘aquele que não encontrou uma razão para lutar até a morte, ainda não compreendeu o sentido da vida’. O rap me deu esse sentido, propósito e realização, e hoje uso a música e a arte como ferramentas dentro do meu trabalho com crianças e adolescentes, levando-os a centros culturais, oficinas ou outras atividades que proporcionem pertencimento e conexão. A música pode ajudar outros a se descobrirem, encontrarem seus sonhos e motivação para seguir.”

 

 

 

Quando bate aquele bloqueio criativo, a psicologia pode ajudar a destravar? Como você encara esses momentos?

“Quando existe um bloqueio criativo, muita gente espera aquela inspiração ‘fantasma’ vir sozinha, mas nem sempre ela aparece. Eu percebi que a criatividade também vem de buscar referências externas, interagir com pessoas de outros estilos e áreas, estudar e pesquisar. Grande parte das minhas músicas surgiram assim: por uma frase que ouvi, uma experiência ou algo que observei, e a letra foi se formando a partir daí. Quando eu dançava break, por exemplo, pegava movimentos do balé, da ginástica olímpica e da capoeira para criar passos originais. A criatividade, na minha visão, é saber misturar influências de dentro e de fora para gerar algo novo.”

 

Que conselho você daria, tanto como MC quanto como psicólogo, pra quem sonha em viver de música mas também quer cuidar da mente?

“Na minha vivência, a primeira coisa é chegar devagar e sem muitas expectativas, porque expectativa demais é a mãe da frustração. Se você quer que sua música seja conhecida, não basta só lançá-la e esperar que dê certo; é preciso agir: divulgar, estudar o mercado, observar como outros artistas fizeram. Sempre tenho um plano B: invisto pesado na psicologia, que abre portas para usar a arte no meu trabalho, enquanto sigo desenvolvendo minha música. Não adianta se precipitar ou abandonar outras responsabilidades; tenha um pé de segurança, aprenda, produza, divulgue e use o rap como ferramenta, seja na arte ou no seu dia a dia. Expectativa sem ação só aumenta a chance de frustração.”

 

 

 

Impacto Real com Psicologia e Hip Hop

Os resultados não ficam só na teoria. Histórias de transformação mostram como a rima pode mudar vidas: pessoas que encontraram no rap uma forma de lidar com perdas, superar vícios ou simplesmente acreditar mais em si mesmas.

A união dessas duas áreas mostra um caminho potente para os próximos anos. A tendência é que mais profissionais, como o Rapper Soul Afra, se abram para métodos que valorizam a cultura, entendendo que o hip hop não é só entretenimento, mas também instrumento de cura e fortalecimento mental.

 

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